A Internet no Brasil alcançou na última quarta-feira (28) uma marca histórica: 60% de seus usuários passaram a ter IPv6 habilitado, aponta a métrica “IPv6 Capable” do APNIC (Asia Pacific Network Information Centre), uma das principais referências internacionais no acompanhamento da adoção do protocolo. Fundamental para que a Internet continue crescendo e conectando cada vez mais pessoas, dispositivos e serviços, o IPv6 supera a escassez de endereços da versão anterior (IPv4) do protocolo, reduzindo a necessidade de soluções complexas de compartilhamento de endereços, e provendo maior escalabilidade e capacidade de expansão da infraestrutura global.
Essa evolução, que beneficia toda a sociedade, é resultado de duas décadas de esforços conjuntos, envolvendo investimentos e trabalho técnico dos provedores de Internet, além de políticas, recomendações, capacitação, disseminação de conhecimento e articulação entre diferentes setores. Nesse processo, o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) desempenharam um papel decisivo, ajudando a criar a conscientização para que a adoção do IPv6 avançasse de forma segura no país.
“Há 20 anos trabalhamos para criar as condições técnicas, institucionais e humanas que permitiram ao Brasil chegar até aqui. Alcançar 60% de adoção do IPv6 é uma conquista importante, resultado de um esforço conjunto que envolve provedores, fabricantes, empresas, órgãos públicos, universidades e profissionais da área. Mas essa marca não significa que o trabalho está encerrado. É um passo importante para ampliar ainda mais a adoção do protocolo e garantir que a Internet no Brasil continue crescendo de forma sustentável”, afirma Milton Kashiwakura, diretor de Projetos Especiais e de Desenvolvimento do NIC.br.
Em 2006 o Registro.br começou a distribuir endereços IPv6 no Brasil, o que marca a decisiva atuação do NIC.br na disseminação da tecnologia. Uma das principais frentes é o Projeto IPv6.br, que engloba uma série de ações do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR para difundir a versão 6 do Protocolo Internet em território nacional. Criado em 2008, o Projeto IPv6.br já capacitou cerca de 11 mil especialistas da comunidade técnica, sempre em aulas com instrutores e turmas fechadas. Além de oferecer formação gratuita por meio de cursos básicos e avançados sobre o tema, o projeto leva conhecimento a profissionais de diferentes regiões, e agrega experiência através das Semanas de Capacitação, das lives Intra Rede, do podcast Camada 8 e dos cursos BCOP — Boas Práticas Operacionais para Sistemas Autônomos.
O NIC.br desenvolveu iniciativas para facilitar a implementação do protocolo e estimular sua adoção na prática. Em 2009, criou uma VLAN IPv6 no IX.br São Paulo e ofereceu trânsito IPv6 gratuito, permitindo que provedores experimentassem a tecnologia em um ambiente real. Publicou também o livro Laboratório IPv6, com conteúdo didático e exercícios práticos, e o Guia de Compras IPv6, para orientar a aquisição de equipamentos compatíveis com o protocolo. Em 2023, lançou o Prêmio IPv6, posteriormente transformado no Desafio BCOP, com o objetivo de reconhecer e incentivar boas práticas operacionais e de segurança.
“Todas essas ações têm ajudado a reduzir as barreiras técnicas e a criar condições para que organizações de diferentes portes avancem na adoção do IPv6, com o mesmo propósito: combinar capacitação, ferramentas práticas, incentivo à adoção e articulação da comunidade técnica. São frentes complementares que contribuem para uma Internet mais robusta, segura e escalável, preparada para acompanhar o crescimento das conexões e as demandas do futuro”, explica Antonio Moreiras, gerente de projetos e desenvolvimento do NIC.br.
Ações do CGI.br
O CGI.br tem contribuído continuamente para a ampliação do IPv6 no Brasil. Em 2012, o Comitê estabeleceu recomendações abrangentes para a implantação da tecnologia no país, envolvendo provedores de acesso, Sistemas Autônomos, provedores de conteúdo e serviços, fabricantes, empresas, governo, universidades e centros de pesquisa.
A partir daí, o trabalho avançou em diferentes frentes. Em 2013, novas ações de mobilização e conscientização foram estabelecidas, além da produção de materiais didáticos e vídeos educativos pelo NIC.br e do incentivo à capacitação em IPv6. Em 2014, reforçou-se tanto a comunicação com a sociedade, quanto a necessidade de que equipamentos comercializados no Brasil oferecessem suporte adequado aos dois protocolos.
Mais recentemente, ao definir seus temas prioritários para 2024–2027, o Comitê incluiu a “infraestrutura crítica da Internet” entre suas prioridades e apontou a promoção e expansão do IPv6 no Brasil como parte dessa agenda.
Tendência consolidada
A marca de 60% dos usuários de Internet brasileiros com IPv6 não representa um pico isolado, mas a consolidação de uma tendência que vem se sustentando ao longo do tempo. “O percentual mostrado pelo APNIC é calculado com base na média das medições dos 30 dias anteriores, o que ajuda a suavizar variações pontuais e a evitar que oscilações isoladas distorçam a tendência geral. Ao analisar os dados diários, observamos que, a partir de 2 de outubro de 2026, as medições passaram a se manter consistentemente acima de 60%”, destaca Moreiras, que acrescenta:
“Precisamos reconhecer a atuação dos provedores de Internet, que investiram na implantação do protocolo e contribuíram para esse avanço. Sabemos que essa transição envolveu desafios técnicos, mas essa marca demonstra que boa parte do mercado já conseguiu superá-los. Aos que ainda não caminharam nessa direção, fica o incentivo para que façam isso: a adoção do IPv6 é uma necessidade para o crescimento sustentável da Internet. Com esse esforço, todos ganham.”
Por que o IPv6 é importante?
Para compreender melhor a importância da versão 6 do Protocolo Internet, é preciso voltar ao início da década de 1990, quando a rede começava, aos poucos, a deixar o ambiente mais restrito das universidades e dos centros de pesquisa para ser utilizada também pela população em geral. Nesse contexto, o IPv4, que sustentou o funcionamento da Internet desde 1983, começava a dar sinais de esgotamento face à crescente demanda por endereços IP.
Tornou-se necessário, então, desenvolver um substituto para essa tecnologia, trabalho que ganhou forma a partir de 1994, ao mesmo tempo que eram criadas soluções para prolongar o uso da versão 4 do protocolo – uma das estratégias adotadas foi o compartilhamento de endereços IP públicos entre vários dispositivos como o NAT (tradução de endereços IP).
O IPv6 foi projetado para suprir a crescente demanda por endereços IP, prevendo endereços únicos para um número muito maior de dispositivos e usuários conectados, porém não há compatibilidade direta do IPv6 com seu antecessor. Essa falta de retrocompatibilidade fez com que transição para a nova versão do protocolo exigisse mecanismos específicos para preservar a comunicação com redes que ainda dependem da versão antiga. Por isso, a implantação do IPv6 vem ocorrendo de forma gradual, e segue funcionando em paralelo com o IPv4.