Por Daniel Sabença, Chief Technology Officer (CTO) do Grupo Macro

Muitas empresas estão comemorando ganhos de produtividade com inteligência artificial. Mas isso mascara um problema mais incômodo: automatizar tarefas nunca foi o mesmo que transformar uma operação.
Existe um equívoco de origem: tratar a inteligência artificial como mais um recurso plugado em fluxos já existentes, e não como um fator que altera a própria lógica de operação das organizações. A verdade é que muita transformação digital não mudou a forma como as empresas operam. Apenas digitalizou a burocracia.
Agora, a inteligência artificial agêntica expõe o limite desse modelo. O próximo ciclo da transformação digital não será definido por quem usa mais ferramentas, mas por quem constrói modelos operacionais inteligentes, capazes de integrar dados, processos, governança e execução em tempo real.
É aqui que a lógica da automação tradicional começa a ruir. Agentes não apenas respondem. Eles executam decisões e conectam intenção à ação, algo que a automação tradicional nunca conseguiu entregar de forma consistente. Mas, se agentes de IA conectam intenção e ação, por que ainda insistimos em tratar tecnologia como uma camada superficial sobre processos antigos?
A maioria das empresas não está preparada para esse salto, embora acredite que esteja. Sistemas foram digitalizados, mas não integrados; informações foram capturadas, mas não confiabilizadas; processos foram mapeados, mas continuam fragmentados. Empresas costumam imaginar que agentes de IA resolverão seus gargalos operacionais.
A desconfortável realidade é: agentes não organizam operações desorganizadas. Eles apenas tornam essa desorganização impossível de esconder. Empresas com dados ruins, processos frágeis e pouca governança tendem a ver seus problemas amplificados em escala.
É justamente nas operações do dia a dia que esse limite aparece. Em áreas como cobrança e vendas, a aplicação de agentes de IA só gera valor quando há arquitetura, integração e supervisão. Um agente pode priorizar contatos, personalizar abordagens, monitorar interações e ajustar estratégias em tempo real. Mas isso só é possível se ele acessar informações confiáveis, respeitar regras de negócio, operar dentro de limites definidos e ser acompanhado por indicadores claros.
Sem esses elementos, a automação se transforma em risco operacional. Com eles, deixa de ser automação e passa a ser uma vantagem competitiva real.
Quanto maior a autonomia dos agentes, menor pode ser a tolerância à falta de governança. Autonomia sem governança não é inovação, é risco em escala. Esse é um ponto crítico que não pode ser ignorado.
O AI Index Report 2024, da Stanford HAI, destaca que a expansão da inteligência artificial vem acompanhada de preocupações relevantes com governança, privacidade, segurança e confiabilidade. Isso reforça a ideia de que a inteligência artificial não é neutra. Ela opera sobre estruturas, regras, permissões e limites.
Empresas que tratam a inteligência artificial como um atalho produtivo ignoram totalmente esses aspectos. É isso que realmente muda com a IA agêntica. Ela separa discurso de realidade. Quem apenas adicionar agentes a processos ruins terá mais ruído, mais risco e mais frustração. Quem redesenhar sua operação em torno de jornadas inteligentes, dados integrados e governança clara terá uma vantagem difícil de copiar, porque estará construindo não uma tecnologia, mas uma forma de operar.
As empresas precisam deixar de pensar em automações pontuais e passar a pensar em sistemas de execução de ponta a ponta: onde o cliente espera, o dado se perde, decisões travam e onde o trabalho humano ainda existe apenas porque os sistemas não se conectam.
O diferencial está em construir operações capazes de funcionar com ela. O restante será apenas digitalização de burocracias com uma tecnologia mais sofisticada. Por isso, a adoção da IA agentiva exige maturidade.
Sem governança, agentes apenas escalam erros. Sem dados confiáveis, amplificam problemas. Sem limites claros, transformam a eficiência em risco. E sem integração real, não passam de interfaces sofisticadas sem resultado. O importante não é quanta autonomia uma empresa consegue entregar aos seus agentes, mas quanto de governança ela consegue construir para sustentá-la. Afinal, inteligência sem controle não transforma operações, apenas acelera seus problemas.
Imagem: https://pt.vecteezy.com/foto/6024494-o-robo-braco-pega-a-caixa-para-robo-autonomo-transporte-em-armazens-conceito-de-automacao-de-armazem