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Especialista explica por que conhecer o negócio, saber resolver problemas e conferir os resultados da tecnologia são habilidades importantes para não perder espaço no mercado de trabalho

Durante anos, a recomendação para quem queria se preparar para o avanço da tecnologia no trabalho passou por aprender programação, como Python e SQL. A ideia era que profissionais sem capacidade de se comunicar com máquinas ficariam para trás.

Para Daniel Delgado (@doutoresdoexcel no Instagram), especialista em análise de dados, o avanço da inteligência artificial mudou essa discussão. “A IA já faz o como para você. O que importa agora é saber o que você quer construir. E isso não vem de um curso de programação. Vem da sua experiência, do seu conhecimento sobre o negócio, das dores que você já viveu no dia a dia de trabalho”, afirma.

Delgado tem um nome para o perfil que está em risco: o “apertador de botão”. É o profissional que executa sem entender o processo por trás, depende de uma única ferramenta para entregar resultado e, quando essa ferramenta falha ou muda, não sabe o que fazer. “A IA não vai substituir o médico, o contador, o gestor de logística. Mas vai substituir o médico que só preenche formulário, o contador que só lança número, o gestor que só replica planilha do jeito que sempre foi feito”.

Na leitura dele, o que está acontecendo não é apenas substituição de postos de trabalho. É uma redistribuição de poder dentro das organizações. Quem souber usar bem a tecnologia passa a ter uma capacidade de entrega que antes exigiria uma equipe inteira.

O exemplo vem da própria experiência. Delgado precisava de uma ferramenta para gerenciar pop-ups no site. A solução de mercado custaria R$3.500 por ano. Em quatro horas, sem escrever uma linha de código, construiu a própria ferramenta, personalizada e independente de plataformas externas. “Antes, isso seria impossível para mim. Hoje, é uma tarde de trabalho. E a diferença não foi a IA em si. Foi eu saber exatamente o que eu queria construir”.

O que vale mais do que saber programar

O relatório da Coursera para 2026 aponta que habilidades ligadas a pensamento crítico e validação de respostas ganharam relevância em um cenário no qual a IA automatiza parte das tarefas técnicas. Na área de dados, matrículas em cursos de pensamento crítico cresceram 168%, segundo a plataforma.

Delgado chama esse processo de levantamento de requisitos. Antes de acionar a ferramenta, diz ele, o profissional precisa definir com clareza o problema a ser resolvido. “Quem tem vivência de negócio, quem já errou, quem já entendeu onde as coisas quebram dentro de uma empresa, esse profissional tem uma vantagem enorme. Porque ele sabe o que pedir. E saber o que pedir é, hoje, mais valioso do que saber programar”.

Há um risco concreto para quem ignora essa etapa, diz Delgado. “A IA alucina. Ela comete erros com muita confiança. Quem não tem conhecimento suficiente para perceber vai entregar esse erro para o chefe, para o cliente, para a empresa. E aí o problema não é a IA. É a falta de preparo de quem usou”, completa.

Profissões do futuro ou perfil do futuro?

Delgado é cético em relação ao discurso das profissões do futuro, com listas que aparecem periodicamente para anunciar cargos que ainda não existem. Para ele, a IA não deve criar apenas um novo conjunto de ocupações, mas mudar o perfil exigido em funções que já existem.

Ganham espaço, afirma o especialista, profissionais que combinam conhecimento da própria área com capacidade de usar IA para resolver problemas do negócio. É o caso do contador que entende de IA, da pessoa de RH que consegue construir uma solução e do gestor de logística que deixa de depender exclusivamente do time de tecnologia para obter um relatório.

A janela, diz ele, tem prazo. Em sua avaliação, saber usar IA tende a deixar de ser diferencial nos próximos anos e passar a ser uma exigência básica do mercado. “Quem começar agora ainda chega como referência. Quem esperar vai chegar como mais um”, diz.

Imagem: divulgação/ Magnific

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