Pular para o conteúdo principal

ABEINFO

A corrida das empresas para adotar inteligência artificial tem impulsionado a criação de centenas de provas de conceito (POCs), mas uma parcela significativa desses projetos nunca chega à operação. Embora demonstrem viabilidade técnica em ambientes controlados, muitas iniciativas acabam sendo abandonadas antes de gerar impacto real nos negócios, levantando um novo alerta para o mercado: o risco de as POCs se transformarem em um “cemitério de inovação”, em que organizações acumulam pilotos tecnicamente bem-sucedidos, mas incapazes de produzir impacto financeiro ou operacional.

Segundo o Gartner, pelo menos 50% dos projetos de inteligência artificial generativa foram abandonados após a fase de prova de conceito até o fim de 2025. Entre os principais motivos estão baixa qualidade dos dados, controles de risco inadequados, aumento dos custos e falta de clareza sobre o valor entregue ao negócio. Já a pesquisa global da McKinsey mostrou que, embora 88% das organizações utilizem IA regularmente em pelo menos uma função, apenas 39% afirmam perceber algum impacto no EBIT, sendo que, na maioria dos casos, essa contribuição representa menos de 5% do resultado da empresa.

De acordo com Daniel Castello, CEO Brasil da Verzel, empresa de tecnologia aplicada a negócios, o problema raramente está na capacidade técnica da ferramenta. “PoC que falha não me preocupa, pois falhar barato é a função dela. O que mais me assusta é a PoC que funciona e ninguém sabe o que fazer com ela, porque ninguém decidiu antes quem seria o dono do resultado, qual número ela tinha que mover no negócio e o que aconteceria no dia seguinte ao piloto. As empresas não podem perder dinheiro testando IA”, afirma.

Na visão do especialista, toda POC deveria ser estruturada com cinco definições desde o início: qual problema estratégico será resolvido, qual métrica indicará seu sucesso ou fracasso, quais condições de dados e processos precisam estar disponíveis, quem será o responsável pela decisão e pelos resultados e qual será o plano para transformar o piloto em uma solução efetivamente integrada à operação. Complementando esse panorama, a Boston Consulting Group (BCG) aponta que apenas 5% das empresas conseguem gerar valor com IA em escala, enquanto 60% registram pouco ou nenhum ganho material de receita ou redução de custos, apesar dos investimentos realizados.

Em busca de resultados rápidos, muitas organizações priorizam a implementação de pilotos para apresentar novidades ao mercado ou à alta gestão, mas deixam em segundo plano aspectos como integração com sistemas existentes, governança de dados, adaptação dos processos internos e definição de responsabilidades. Como consequência, projetos promissores acabam sendo interrompidos antes de gerar benefícios concretos.

Para Castello, a próxima fase da adoção de inteligência artificial será marcada menos pelo volume de experimentos e mais pela capacidade de transformar pilotos em soluções efetivamente incorporadas ao dia a dia das empresas. “Se a PoC não tem um dono e critério de descarte definido antes de começar, ela não poderia nem começar”, conclui.

Imagem: divulgação.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *